Romance I ou Da revelação do ouro Nos sertões americanos, anda um povo desgrenhado: gritam pássaros em fuga sobre fugitivos riachos; desenrolam-se os novelos das cobras, sarapintados; espreitam, de olhos luzentes, os satíricos macacos. Súbito, brilha um chão de ouro: corre-se - é luz sobre um charco. A zoeira dos insetos cresce, nos vales fechados, com o perfume das resinas e desse mel delicado que se acumula nas flores em grãos de veludo e orvalho. (Por onde é que andas, ribeiro, descoberto por acaso?) Grossos pés firmam-se em pedras: sob os chapéus desabados, o olhar galopa no abismo, vai revolvendo o planalto; descobre os índios desnudos, que se escondem, timoratos; calcula ventos e chuvas; mede os montes, de alto a baixo; em rios a muitas léguas vai desmontando o cascalho; em cada mancha de terra, desagrega barro e quartzo. Lá vão pelo tempo adentro esses homens desgrenhados: duro vestido de couro enfrenta espinhos e galhos; em sua cara curtida não pousa vespa ou moscardo; comem la...